Em agosto de 2026 fotografei o eclipse solar total de 2026 em Espanha — um projecto planeado com mais de um ano de antecedência. Há fenómenos que não se recusam, e este era um deles. Entre 99% de ocultação e a totalidade há uma diferença que nenhum número consegue explicar.

Um Ano de Planos Abandonados — O Caminho até Valladolid
A primeira ideia surgiu a olhar para o Google Maps: enquadrar o farol de Finisterra com o Sol, a vários quilómetros de distância. No entanto, ao confirmar com o Photopills, a aplicação que já usei para planear outras fotografias, a ocultação não seria total nesse ponto da costa galega. Ficaria pelos 98 ou 99%. Abandonei o farol sem hesitar.
O foco virou-se para a faixa de totalidade. A costa norte de Espanha era apetecível: o eclipse acontecia próximo do horizonte, quase como um pôr-do-sol. Mas o risco de nevoeiro afastou essa hipótese. O interior era mais seguro. Burgos tornou-se o ponto de partida, e a pesquisa foi sendo alargada às redondezas. Com a ajuda de ferramentas de inteligência artificial, encontrei locais com as características certas. Castrojeriz, perto de Burgos, prometia 1 minuto e 46 segundos de totalidade.
O Castelo de Peñafiel, um pouco mais a sul, oferecia 1 minuto e 36 segundos — e um primeiro plano fotogénico que não existe em muitos sítios: uma silhueta medieval erguida sobre a planície castelhana, enquadrada com o eclipse. Era este o plano. Fiz tudo direitinho — ainda faltavam mais de seis meses.

De Portugal a Castela
No início de 2026, com o eclipse a aproximar-se, comecei a tratar do alojamento na região de Valladolid. Os resultados eram escassos e os preços fora de qualquer lógica. Só quando pesquisei notícias sobre o eclipse em Espanha é que percebi a dimensão da coisa: os alojamentos estavam esgotados há mais de um ano. A solução foi ficar em Portugal, perto da fronteira, e fazer a viagem de ida e volta no mesmo dia. Impus um limite de duas horas e meia de condução para cada lado, Peñafiel ficava ligeiramente fora do intervalo, mas compensava pela paisagem.
Na semana do eclipse, ao pesquisar notícias locais, surgiu uma preocupação que não tinha previsto: o acesso ao local exacto de onde queria fotografar. Com receio de fazer centenas de quilómetros e não conseguir chegar ao sítio certo — e a viajar em família com um bebé com menos de 2 anos —, mudei os planos pela última vez e optei por um dos pontos de observação oficiais da região: Belén Viviente de Cabezón de Pisuerga.
O Ensaio
O equipamento para fotografar o eclipse solar total de 2026 não é o mesmo de sempre, nem o mesmo que uso habitualmente na astrofotografia. Para além da câmara e da teleobjectiva, é preciso um filtro solar que proteja o sensor durante as fases parciais — e que seja removido exactamente no segundo contacto, quando começa a totalidade.

Na véspera, no pátio do alojamento, montei tudo e testei. Com a câmara apontada ao Sol da tarde, confirmei a exposição e deixei tudo configurado para não ter essa preocupação no local.
Cabezón de Pisuerga
Para o eclipse solar total de 2026, o destino foi o Belén Viviente de Cabezón de Pisuerga: 1 minuto e 32 segundos de totalidade, um recinto organizado e logística garantida.
Sabendo o que sei hoje, tinha mantido o plano do castelo — não pelo tempo de totalidade, que é sobreponível, mas pela composição. Um castelo medieval erguido sobre a planície de Castela teria dado ao eclipse um enquadramento que o recinto de Cabezón não tem. Foi a decisão fotográfica de que me arrependi.
Chegámos cedo. O recinto estava quase vazio.
O calor era intenso.
Em pouco tempo havia centenas de pessoas espalhadas pela colina — cadeiras, guarda-sóis, telescópios, famílias com toda a logística que um evento assim exige.


Com os filtros montados, era uma questão de esperar.
Quando a Lua tapou o Sol
As fases parciais começaram de forma quase imperceptível. A luz foi mudando antes de qualquer escuridão — uma qualidade diferente, como se o Sol estivesse a perder força sem razão visível.
No visor, a Lua avançava sobre o disco solar.

Depois vieram as Baily’s Beads — os últimos raios de Sol a escaparem-se pelos vales da superfície lunar, num clarão de segundos antes da totalidade.

E então ficou noite.
O coro de “WOW” que se seguiu não estava em nenhum dos vídeos que tinha visto durante a preparação, em nenhuma das fotografias que tinha estudado. Há duas coisas que não me saem da cabeça: a diferença entre 99% e a totalidade — que é enorme — e esse espanto colectivo de centenas de pessoas a reagir ao mesmo instante. Houve tempo, no final, para largar a máquina e simplesmente estar ali a contemplar.

Não sei se terei oportunidade de presenciar outro eclipse solar total. Mas é um evento ao qual todos deveríamos ter oportunidade de assistir pelo menos uma vez na vida. Por muitas fotografias e vídeos que se vejam antes, nada prepara para o momento real.
Se quiseres saber mais sobre o meu trabalho, podes contactar-me por aqui.

