Na Baixa do Porto, a poucos passos dos Aliados, a Rua de José Falcão guarda uma fachada de pedra e azulejo azul que atravessou mais de um século de cidade. Foi aí que fiz um trabalho de fotografia de hotel boutique para a Casa Falcão, o novo hotel da Aspasios.
Foi um trabalho diferente desde a primeira conversa. O hotel já tinha fotografias, feitas antes de mim, mas não se revia nelas: a cor, a luz e a perspectiva não correspondiam ao espaço que tinham construído. O pedido era simples de dizer e exigente de cumprir: fazer diferente, e melhor, na fachada, na recepção, no bar e no lobby. Não se tratava de fotografar o hotel inteiro. Era uma intervenção cirúrgica. Quando ouvi o que procuravam, percebi que o caminho coincidia com a forma como olho para a arquitectura. Poucas vezes um briefing pareceu-me tão próximo do meu próprio olhar.

Quando os globos voltam a ser redondos — fotografia de hotel boutique à escala real
Lá dentro, o espaço fala alto. Tectos vermelhos, estofos verdes, revestimentos em madeira, colunas de azulejo branco, apontamentos dourados. Um interior assim tem uma armadilha: a cor pode engolir a arquitectura. Por isso a minha primeira decisão não foi de enquadramento, foi de fidelidade. O vermelho não podia resvalar para laranja, os brancos não podiam ficar rosados, e cada material tinha de se distinguir do vizinho.
A luz pedia o mesmo cuidado. A luz natural entra pelos grandes vãos da fachada, os candeeiros acrescentam pontos quentes e os pendentes lineares desenham o bar. Equilibrar tudo isto é decidir que cada fonte se lê como luz, e não como uma mancha queimada na imagem.
A medida certa
Depois, a perspectiva. A grande angular é uma ferramenta indispensável em interiores, e também a mais fácil de levar longe demais. Quando se abre em excesso, o espaço parece maior do que é, as paredes fogem e tudo o que está perto das margens estica. Os globos do candeeiro de tecto eram o teste mais exigente: uma esfera junto ao limite do enquadramento deixa de ser esfera e passa a oval. Por isso fechei o ângulo, recuei e mantive o candeeiro longe das margens. O objectivo era que os globos continuassem redondos e que o espaço tivesse na imagem a escala que tem quando se entra.
Numa intervenção cirúrgica, cada enquadramento tem de justificar o seu lugar. Na recepção, o candeeiro circular organiza a imagem e o sofá curvo conduz o olhar até ao balcão. No bar, a linha do balcão e dos bancos puxa a imagem para o fundo, onde uma pintura figurativa faz parte da vida da sala. Num enquadramento vertical, um aplique entre painéis, uma mesa e uma cadeira resumem a paleta do projecto num só plano. Poucas imagens, mas cada uma a responder a uma pergunta concreta.
Nalgumas há hóspedes, e ainda bem. Um hotel mostra-se melhor a funcionar do que em pose.

A fachada que ficou
A reabilitação da Casa Falcão fez com o edifício o que me pediram que fizesse com as imagens: manter o essencial e intervir só onde era preciso. A fachada ficou, com a pedra, o azulejo azul-claro, a varanda em ferro e as duas estátuas no topo. Atrás delas, um volume novo, recuado e de linhas simples, assume a intervenção sem competir com o que está à frente.
Fotografei-a de frente, de um ponto mais alto, com as verticais direitas, para que se lesse como o edifício a propõe: em simetria, sem distorção. E deixei os vizinhos entrar. À esquerda, um edifício com as datas 1895–1914 inscritas no friso; à direita, outro revestido a azulejo verde. Isolar a Casa Falcão seria mentir sobre a escala e sobre a rua. Os carros estacionados também ficaram. É assim que a rua é.
A relação continua do lado de dentro. Da recepção, a porta envidraçada abre-se para a calçada e para as casas em frente. O hotel não se fecha à cidade, e a fotografia também não devia.

Nem sempre é preciso começar do zero
Há trabalhos que pedem tudo, e outros que pedem precisão. Na Casa Falcão, o valor não esteve na quantidade de imagens. Esteve em perceber o que faltava e em resolver isso com o menor número possível de gestos certos.
Se tem um hotel, um espaço de hospitalidade ou um projecto de arquitectura cujas imagens já não dizem o que o espaço é, escreva-me. Às vezes basta olhar outra vez, com atenção, para os lugares certos.
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