Há espaços que se fotografam pela arquitectura e outros que se fotografam pelo que guardam. Neste trabalho de fotografia de interiores no Cozy Loft in Old Town Viana, no centro histórico de Viana do Castelo, encontrei as duas coisas ao mesmo tempo. Por um lado, um estúdio em open space desenhado com linhas limpas e muito branco. Por outro, uma memória inteira pousada dentro dele: o azulejo azul, o traje tradicional de Viana reinterpretado em grandes telas e um par de figuras populares junto à televisão.
Fotografar um lugar assim é uma questão de equilíbrio. Se o branco domina, a memória desaparece. Se a memória se impõe, o espaço deixa de respirar. O meu trabalho foi encontrar os ângulos em que as duas se ouvem sem se atropelarem.

O que a fotografia de interiores aprende com um azulejo
O azulejo é o fio desta casa. Aparece na cozinha, volta na casa de banho, e em cada divisão repete o mesmo desenho com uma luz diferente. Fotografei a cozinha de frente, quase como um alçado: verticais direitas, simetria assumida, o padrão a ler-se como um plano contínuo. A iluminação sob os armários faz o resto e transforma a parede num pequeno painel luminoso. Até o pano pendurado no forno traz o coração de Viana.
Num open space, o desafio é mostrar que as zonas existem sem que haja paredes a separá-las. Aqui quem organiza o espaço é a longa mesa de madeira. É ela que desenha a fronteira entre cozinha e sala, e o plano elevado da cama, vencido por dois degraus, fecha a sequência. Escolhi pontos de vista baixos e perspectivas longas para que essa leitura fosse imediata, de uma ponta à outra.
Por trás do branco há um edifício antigo, e ele não se esconde. Os vãos altos mantêm as molduras em pedra e as portadas, e as vigas de madeira à vista marcam o tecto com um ritmo que atravessa todo o espaço. Enquadrei-as como linhas de fuga, para que a pré-existência desse escala à intervenção contemporânea em vez de desaparecer atrás dela. As telas, com o lenço e o ouro ao peito, entram nas imagens como parte do lugar e não como assunto: estão lá como estaria uma janela.
Na casa de banho, o candeeiro em fibra natural projectava na parede uma sombra que nenhum projecto tinha previsto. Deixei-a ficar. Às vezes a melhor decisão fotográfica é perceber o que não se deve corrigir.

A porta que não promete nada
De fora, nada anuncia o que está lá dentro. Uma rua estreita em calçada no centro histórico, fachadas amarelas e brancas, beirados de telha e duas portas escuras emolduradas em pedra. É uma arquitectura discreta, do género que se atravessa sem reparar.
Para mim, era precisamente aí que estava a fotografia. Não quis fazer da fachada aquilo que ela não é. Quis mostrar a passagem. Fotografei a porta entreaberta, com a calçada em primeiro plano e o azulejo da cozinha a acender-se lá ao fundo. A rua empresta a textura, o interior responde com luz, e a moldura de pedra é a mesma dos dois lados. Nesse enquadramento, o exterior deixa de ser o lado menor da casa e passa a ser o seu prólogo.

Uma casa com identidade
No fim, o que fica destas fotografias não é o inventário de um alojamento. Fica a sensação de um lugar que sabe de onde vem, onde a tradição não é cenário e o design não é frieza.
Se tem um espaço que guarda uma história, seja um alojamento, uma casa ou um projecto de reabilitação, e quer imagens que as conte, fale comigo.












